Domingo, 20 de Setembro de 2009
Deus não existe

Há crianças por todos os lados, mulheres a implorar a Deus por salvação, enfermeiros em correria, médicos estressados... Esta é a rotina de todo U.T.I. (Unidade de Tratamento Intensivo) infantil!

 

Com os cabelos desarrumados e a roupa simplória, a jovem busca o leito de número 22, pois lá está seu filho de cinco anos, em coma há dois dias, víctima de leucemia. Ao não conseguir um dador de medula compatível, o miúdo passou a definhar rapidamente. E a jovem mãe, viúva há alguns anos - seu esposo faleceu da mesma enfermidade, passou a morar no hospital, na esperança de que ao menos o filho se curasse desse mal; esperança essa que morre aos poucos, pelo facto da doença agravar-se a cada dia.

Uma brisa fria desce do céu, invade o corredor, toca-lhe os cabelos, acaricia-lhe a face... A sensação de perda é inquietante! Joana chora, teme entrar no quarto e não mais encontrar seu pequeno João. Como dói o coração de uma mãe ante a perda de um filho, não é? Talvez seja a pior das dores já concedidas pela natureza!

 

Ao entrar no quarto, encontra sua mãe, uma senhora de sessenta e poucos anos, orando em sussurros. Na outra ponta do quarto, sua sogra, com o esposo, acompanham tudo em silêncio, não há mais nada a faz pelo neto, a não ser aguardar o seu vôo a terras distantes e desconhecidas pelo homem.

 

O aparelho que acompanha os batimentos cardíacos do menino toca, o pânico toma conta dos presentes, enquanto o médico e algumas enfermeiras adentram ao quarto. Os olhos da mãe, de um vermelho sangue, encontram-se aos do doutor, que tenso, pede a todos que se retirem.

 

_Meu filho...! Não o deixe ir em embora, doutor Pedro! Salve-o!!!

 

_Farei o que for possível, mas agora saia! Precisamos de espaço! Por favor!

 

_Salveeee meu filho – implora a mulher, em soluços, segurando-o pelo braço.

 

_Por favor! Deixe-me agora!- solicita, tentando libertar-se da mulher para, talvez pela última vez, reverter a parada cardiorrespiratória do menor. Enfermeiras, tirem-nos daqui! Todos!!! E me tragam o desfibrilador... Agooooooora!!!

 

Antes mesmo que as enfermeiras atendessem às ordens do doutor, a jovem, após muita resistência, termina empurrada pelos próprios familiares ao corredor. E de lá acompanha as tentativas clínicas de ressuscitação.

 

_Tenha fé em Deus, minha filha!!! – suplica sua mãe, com os olhos marejando. Nosso senhor Jesus Cristo ouvirá nossas preces...

 

_Que Jesus Cristo? Quem é esse?.. – diz Joana, a esmurrar a parede.

 

_...é o filho de Deus, minha filha!- entrecorta-lhe a mãe.

 

_Deus??? Quem é Deus? – pronuncia, num misto de rancor e descrença. Quem é Deus? Ele não existe! Levou meu marido e agora leva meu filho...

 

_ Tu não sabes o que diz, minha filha!

 

_ A senhora é uma parva! Será que está cega? Seu neto está indo embora... -diz, enquanto assiste à criança receber novo choque. E Deus nenhum está aqui!

 

_Por que blasfemas assim, Joana? Deus está aqui sim! –sentencia a mulher, com uma das mãos agarrando com força uma Biblia enquanto a outra acaricia os cabelos da filha.

 

_OOOONNNDEEEE??? Mostre-me ele! Mostre-me!!! Se tu estiveres aqui, Deus, que apareça... vamos, onde estas? – grita, ensandecida, pelos corredores. Onde estas???

 

Sua mãe entra em pranto, sendo prontamente atendida pelos pais de seu falecido genro.

 

_DEUS NÃO EXISTE, MINHA MÃE! DEUS NÃO EXISTE! É MAIS UMA DAS LENDAS DO HOMEM... – berra, afastando-se, aos tropeços, pelo corredor. DEUS NÃO EXISTE! NUNCA EXISTIU!!!

 

Nesse momento, após duas tentativas, o coração de João volta a bater... mais uma vez! O médico, não acreditando que aquilo fosse possível, sorri, ainda que o choro lhe ameaçasse recair sobre a face.

 

_Isso é um milagre! – profere uma das enfermeiras.

 

_Milagre!!? Seja lá o que for, uma coisa é certa: em toda minha vida, e olha que são longos anos, nunca vi um miúdo querer viver tanto como esse João. Quando penso que ele partirá, volta do nada, como se ainda não tivesse concluído sua missão neste planeta. E se isso for mesmo um milagre, hei de creditá-lo nos registros da incrédula Ciência. Agora vamos, deixe-o descansar... não quero ninguém aqui! Esse menino... bem, diga à mãe dele que...ah, não diga nada! VAMOS!!!

 

Ao saírem, são abordados pelos parentes do garoto e, para evitar ainda mais tumulto, todos são conduzidos a uma sala reservada.

 

A porta se abre, um outro médico entra no quarto e se aproxima de João, com visível serenidade estampada à face. Pegando a criança pelo pulso, pergunta:

 

_Como está, Joãozinho? Melhor? Ei, acorde! Já dormistes demais, não achas? –sorri. Acordes, dorminhoco!

 

Aos poucos o menino percebe novamente a luz, o dia, o quarto e o rapaz que está ao seu lado.

 

_Que-quem és tu? Tu não és o meu médico! O que faz aqui!

 

_Vim vê-lo! Estava com saudades!

 

_E tu me conheces? – pergunta o garoto, numa voz enfraquecida.

 

_Digamos que sim! Vim despertá-lo! Há quanto tempo estás a dormir? Já não é hora de levantar, brincar com outras crianças?

 

_Eu estou muito doente, senhor! – titubeia o menor.

 

_Doente? Quem disse? Você está muito bem, olhe para si mesmo, perceba o sopro da VIDA invadir seus pulmões, correr suas veias, bombeando o sangue que leva esperança e amor a todas as células de nosso corpo...

 

_Sim... sim... mas eu tenho uma doença...

 

_Não há doença alguma! – entrecorta-lhe, com o semblante iluminado por um sorriso celestial. Veja... - o homem lhe dá a mão e, vagarosamente, o levanta -... quem está doente é capaz de levantar-se da cama para abraçar a um velho como eu? Não! Quem está doente, fenece como as flores no inverno; não irradia vida como os pássaros na primavera.

 

_Então eu não tenho mais nada? – inquire o menino, com os olhos luzentes, como se o que tinha passado há pouco nunca existira.

 

_Exatamente! Está na hora de ir embora daqui, não achas? Tem um mundo lá fora a esperarte, mas, olhe, nunca se desvie do caminho do bem...

 

Os dois se abraçam.

 

_Agora preciso ir, há outros que ainda preciso visitar antes de ir embora. Sabe, ser médico não é fácil, porque o que está em jogo todo o tempo é a vida humana, o bem divino de maior valia, que o homem deveria prezar com todo o amor possível! Infelizmente, o homem ainda não aprendeu a amar e não sei quanto tempo mais terá para conseguir realizar este feito... Mas vamos mudar de assunto, isso é conversa para adultos e não para um puto lindo como tu!!! Antes que me esqueça, trouxe-lhe um presente... - o homem lhe dá um carrinho. Espero que possa brincar muito ainda com ele.

 

Minutos se passam...

 

Dispara a campainha no leito 22. O médico e os familiares correm para o quarto, a possibilidade de João se entregar à escuridão da morte. Ao entrarem, todos começam a chorar. João está sentado na cama, a sorrir, com os grandes olhos vivos e a face tomada por um brilho só visto nos olhares de mães quando dão a luz.

 

_O que estás a passar aqui? – pergunta o médico à enfermeira que disparou a campainha.

Ela nada responde.

 

_Mãe!!! Tu também estas aqui? Pensei que tivesse me deixado... – diz o garoto, numa grande felicidade, ao ver Joana a chegar ao quarto.

 

_Não, meu beb-be-bebé! – as palavras que lhe saem da boca trepidam assim como sua carne, por ora envelhecida pelo sofrimento. Você está bem? Mas... mas... doutor – vira-se para o médico, o que estás a passar aqui? Ele... ele....

 

_DEUS EXISTE, MÃE! – diz o menino, já em seu colo.

 

_O que disse, filho? – pergunta a mulher, aparvalhada, como se não quisesse acreditar na afirmativa de João. Quem existe?

 

_DEUS! Aquele homem me disse e pediu para que eu também lhe dissesse que o papai não lhe foi tirado, sua missão na terra já havia sido cumprida, que era a de me trazer ao mundo.

 

_Não entrou ninguém aqui, doutor! Isso posso garantir, pois fiquei o tempo todo diante da porta - diz uma das enfermeiras, assustada com o relato do miúdo.

 

_Filho, olhe para a mamãe, e diga apenas a verdade... Quem esteve aqui?

 

_Um homem, ele também é médico, e até brincou comigo.

 

_Com esse carrinho? – interrompe-lhes a mãe de Joana, mostrando o brinquedo e a olhar com fervor para os olhos da filha.

 

_É vó! Com esse carrinho...

 

_ENTÃO DEUS EXISTE!!! Bom saber, não é, Joana?– revida a senhora, com a cabeça altiva e o semblante avermelhado, fixando-se directamente nos olhos da filha.



publicado por autorcarlosmota às 15:50
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
|

Há luz no fim do túnel

Eu tinha todos os motivos para nunca mais escrever, para deixar de lado a poesia das palavras, o sentimento real que brota de cada conto ou trama novelesca que criei ao longo de 16 anos de profissão, entretanto, desisti desta ideia e resolvi encarar novamente o teclado e abordar com coragem os fantasmas que quase me fizeram abandonar o mundo mágico da criação.


 Quando escrevia semanalmente, era comum receber críticas, elogios e todo tipo de sugestão pelo meu trabalho. Vivia por isso e para isso, porque escrever, para mim, era muito mais do que consoantes e vogais ordenadas numa linha do papel: escrever era o meu refúgio, uma forma diferente de me expressar ante a um mundo dominado pela ausência de intimidade entre as pessoas. Eu escrevia para milhares, dizia o que pensava acerca dos temas da atualidade, invadia o imaginário de centenas de dezenas de leitores - amigos anônimos, despertando-lhes para os grandes temas globais. Digo "era" porque talvez nem volte mais a escrever e sabem por quê? Percebi, de repente, que alguma coisa estava errada comigo, afinal, aos poucos era desbravado por uma insônia voraz, perdia a vontade de comer, de brincar com meus filhos, de estudar profundamente as obras imortais que tanto me comoviam e me transportavam para universos paralelos em que o "amor ao próximo" era a essência mais preciosa das coisas. Assim, da alegria originava-se a tristeza, do amor o ódio...


A  melancolia, como a noiva das trevas, encobria-me com seu véu e me aprisionava em uma masmorra, cujas paredes invisíveis prenunciavam o medo. Meu desespero crescia a ponto de tudo perder a cor, o brilho natural... Imaginem-se diante do espelho, sem reflexo, destituído de corpo e alma. Assim eu me via, assim eu me sentia!

 

O próximo passo foi relegar minha auto-estima à cova do esquecimento e deixar de curtir tudo o que gostava. Durante anos, mantive o mesmo hábito: chegar em casa às 20h - depois de 12 horas de exercício profissional, tomar um banho, jantar e ler os jornais do dia, na verdade, devorá-los, até com mais prazer que a própria refeição. Cada comentário político ou notícia relevante, fosse cultural ou mesmo policial, conduzia-me a um mundo maior que o meu, causando-me indignação e, em alguns casos, comoção. Foi assim que acompanhei o caso Isabella, que parou o País por mais de um mês, e assisti à crise financeira levar os mercados americanos à bancarrota. Mas, ao invés de ser desafiado por uma curiosidade sagaz como outrora, passei a deixar os jornais de lado e a dormir. Por incrível que pareça, minha noção do tempo já não mais acompanhava a rotina da realidade, como se a vida não despertasse mais interesse... Que assustador! Por isso, a morte, naquele momento, apresenta-se como a opção mais atrativa!

 

Atormentado, meu coração batia sem rumo, esmorecendo um corpo já em ruínas. Aos poucos, minha vocação esvaía (sou professor, adoro lecionar, manter os laços de cordialidade e companheirismo com minhas crianças - assim chamo meus alunos), o talento não mais reluzia! Era a versão tupiniquim de Lord Byron - o poeta romântico inglês, cujo talento voltava-se à autodestruição. Sem que percebesse, eu estava sendo vítima das artimanhas nefastas de um "verme" poderoso, capaz de partir meu interior em versões destoantes, instigando um confronto de egos sem precedentes. A sensação de ameaça, de morbidez, aliada à necessidade do isolamento, tornava-me estranho, tão estranho que assustava aos meus familiares e a mim mesmo.


A luz vermelha acendeu-se quando pensamentos suicidas invadiram minha mente. Foi a partir daí que resolvi procurar a ajuda de um profissional. Após este relato, o médico voltou-se para mim e disse que eu estava com DEPRESSÃO - doença grave, porém, tratada com desdém por parte da sociedade conservadora, que a considera "doença de rico" ou simplesmente "vadiagem".

E o que aconteceu para que eu chegasse ao fim do túnel? A priori, uma associação "suicida" de estresse com excesso de perfeccionismo. Bem, este artigo é apenas mais um instrumento que encontrei para me resgatar. Se o fiz bem feito não sei, espero apenas ter ajudado a muitos que, como eu, vivem este verdadeiro inferno introspectivo, até porque, só quem passa ou passou por essa experiência é capaz de dimensionar o quão letal ela é.

O importante é saber que a depressão tem cura, desde que tratada a tempo por bons profissionais e medicada conforme a gravidade dos sintomas. O que não vale é ficar em casa, deixar a vida fugir pelas mãos, como se não houvesse luz no fim do túnel, certo?



publicado por autorcarlosmota às 01:02
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
|

Caixa de pandora

Você já sentou debaixo de uma árvore, numa dessas colinas retratadas com extrema surrealidade pelo cinema americano, na companhia da solidão e se perguntou: "Quem eu sou? O que eu sou? Por que sou? O que estou fazendo aqui? De onde vim? Para onde irei?" Certamente deve ter se perguntado, talvez não no bucólico cenário, mas noutro; o que importa mesmo é que, sempre que possível, instigados pelo mistério de nossa origem, almejamos entender o mundo, a vida que nos preenche e o real motivo para estarmos aqui.

Muitas são as respostas, que vão desde o barro a extraterrestres, cada uma mais complexa e excêntrica que a outra, afinal, como afirmam as religiões seculares: "o mistério da vida é indecifrável, está guardado nas entranhas da caixa de Pandora; não compete ao homem vasculhar aquilo que não compreende, porque se o fizer, como numa dessas milhares de profecias de porta de mercearia, receberá o castigo dos deuses, versado na morte eterna..."

Talvez sejamos até mesmo caricatos em algumas respostas, todavia, vasculhar o sentido da existência humana é uma das válvulas de escape para compreendermos aquilo que nos angustia, que nos faz altissonar e temer os dias vindouros; é uma forma nada criativa de se encontrar justificativas para erros cometidos mais de uma vez, por distração ou destino, visto que a cada erro que cometemos, a certeza que nos resta, além da amargura que só cede ante ao pranto, é sensação de acrescentarmos alguma nova experiência positiva ao nosso legado.

Quando estou depressivo, olho-me no espelho, respiro fundo, e por dentro de minhas íris navego... São centenas de milhares de segundos espreitando pela porta de entrada de minha alma. Naquele instante, sinto-me como uma dessas personagens de novela, construído em minúcias para atuar diante de um palco gigantesco, cujo autor, um demiurgo às avessas, manipula a bel prazer, apimentando diálogos envolventes, modulando momentos históricos, reservando um epílogo nada previsível, com muitas reviravoltas e finais nem sempre felizes.

E se ao invés de novela, formos figuras tarimbadas de um show trash como o Big Brother, apreciado por espectadores afoitos, que torcem por nós ou nos repelem, sendo o prêmio algo melhor que o oferecido pela versão global: o direito de permanecer vivo, curtindo o que há de melhor nesta terra abençoada; cabendo aos perdedores, o cessar deste direito? Dá medo só em pensar!

Compreender a dimensão do laço que nos conecta à fonte vital não é um trabalho para simples mortais! Não para mim! Afinal, por mais que tentemos, mais desorientados ficamos, a ponto de desistirmos da empreitada, relegando os enigmas de nossa mais íntima essência às covas da História. Só desta forma o presente continuará interessante e o futuro menos apocalíptico...
 



publicado por autorcarlosmota às 00:56
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
|

.mais sobre mim
.pesquisar neste blog
 
.Setembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


.posts recentes

. Deus não existe

. Há luz no fim do túnel

. Caixa de pandora

.arquivos

. Setembro 2009

.tags

. todas as tags

.links
.Fazer olhinhos
blogs SAPO
.subscrever feeds